Por que o ChatGPT sempre tem uma resposta para o tarot? Entenda o que acontece por trás da leitura

Resposta rápida

O ChatGPT sempre tem uma resposta para o tarot porque ele não adivinha nada: o modelo foi treinado para prever a próxima palavra mais provável a partir do contexto, então sua pergunta e o nome da carta viram ponto de partida para um texto plausível. A tiragem é simulada por prompt, sem cartas físicas, e a própria OpenAI reconhece que o treino recompensa o chute em vez do ‘não sei’. Some a isso o efeito Barnum e a tendência de concordar com o usuário, e a leitura parece feita sob medida. Use como entretenimento, nunca como base de decisão

O ChatGPT nunca responde ‘não sei’ quando você pede uma tiragem de tarot

E isso não é sinal de dom nenhum, é só o jeito como o modelo funciona 🙂

Fala aí, beleza? Muita gente abre o ChatGPT por curiosidade, pede uma leitura de tarot e sai impressionada com a precisão, parece que a IA ‘sacou’ exatamente o momento da pessoa

Neste post eu te conto o que acontece por trás dessa resposta, passo a passo, sem julgar quem usa

A ideia é tu sair daqui entendendo COMO o modelo monta o texto, e isso vale pra tarot, pra código e pra qualquer outra coisa que você pergunte pra uma IA

Como o ChatGPT gera uma leitura de tarot (palavra por palavra)

Antes do como, o porquê: o ChatGPT não consulta cartas, astros nem nada do tipo

Ele é um modelo de linguagem, e modelo de linguagem faz uma coisa só: continua texto

Segundo a Central de Ajuda da OpenAI, os modelos usados no ChatGPT passam por algumas etapas:

  • preparação dos dados de treinamento
  • pré-treinamento
  • pós-treinamento
  • avaliação e melhoria contínuas depois do lançamento

E o que acontece no treinamento? O modelo aprende como as palavras costumam aparecer juntas em cada contexto

Esse processo tem nome: pré-treinamento autossupervisionado, em que o modelo aprende a prever a próxima palavra reconhecendo padrões em quantidades enormes de texto

Na hora de responder, ele usa esse aprendizado pra prever a próxima palavra mais provável, uma de cada vez (tecnicamente, token a token)

Se você conhece o autocompletar do teclado do celular, a lógica é bem semelhante, só que MUITO mais sofisticada e treinada em muiiito mais texto haha

E aplicando isso ao tarot?

Quando você escreve ‘tire uma carta pra minha vida amorosa’, sua pergunta vira contexto

Quando aparece o nome de uma carta, ele também vira contexto

Aí o modelo continua com o que costuma aparecer junto em textos sobre tarot: significados tradicionais, conselhos, aquele tom acolhedor e místico e por aí vai

Em nenhum desses passos existe adivinhação, é previsão de texto do começo ao fim

As cartas que o ChatGPT ‘tira’ existem mesmo?

Não, e isso nem é segredo

Tutoriais em português ensinam a pedir pro ChatGPT ‘simular’ uma tiragem por meio de um prompt: uma carta, três cartas ou até a cruz celta

O próprio TechTudo, num tutorial desses, avisa que a IA não tem cartas físicas e que as respostas devem ser vistas como entretenimento

Ou seja, a carta que aparece na tela sai como texto gerado pelo modelo, igualzinho ao resto da resposta

Por que a mesma pergunta traz cartas diferentes?

Se liga nisso: modelos de linguagem não precisam dar sempre a mesma resposta pro mesmo pedido

Na API da OpenAI existe um parâmetro chamado temperature, que controla a aleatoriedade da resposta, numa faixa de 0 a 2

Com valor perto de 0, o mesmo prompt gera respostas quase iguais, e com valor alto elas variam quase sempre

Tome cuidado com um detalhe: isso é parâmetro da API, não é configuração do app do ChatGPT, então não adianta procurar esse ajuste lá

Ou seja, variar faz parte de como o texto é gerado, e por isso perguntar duas vezes pode trazer duas ‘tiragens’ diferentes

Por que o ChatGPT nunca diz ‘não sei’ (e o que isso tem a ver com alucinação)

Essa é a parte mais interessante, e quem explica é a própria OpenAI

Em setembro de 2025 saiu a pesquisa Why language models hallucinate (arXiv 2509.04664), assinada por Adam Tauman Kalai, Ofir Nachum, Santosh Vempala e Edwin Zhang

A conclusão central: os modelos alucinam porque os procedimentos de treinamento e avaliação recompensam o chute em vez de admitir incerteza

E tem mais: no pré-treinamento, o modelo maximiza a probabilidade dos dados de treino, o que costuma recompensar o que é plausível, e não o que é exato

Quando há poucos dados sobre algo, surgem naturalmente afirmações falsas, mas plausíveis

O que a OpenAI propõe pra corrigir isso?

A correção sugerida é mudar a régua da avaliação:

  • penalizar mais os erros ditos com confiança do que a incerteza
  • dar crédito parcial a quem expressa incerteza de forma adequada

É tipo uma prova em que chutar não vale mais a pena do que deixar em branco =)

E o tarot nessa história?

Uma leitura de tarot é o terreno perfeito pra texto plausível

Não existe resposta ‘certa’ pra checar, então o modelo nunca esbarra num fato que o contradiga

Resultado: um texto fluido, confiante e sem nenhum ‘não sei’ no meio

Por que a leitura do ChatGPT parece feita sob medida para você

Aqui entra um fenômeno bem mais antigo que qualquer IA: o efeito Barnum, também chamado de efeito Forer

Que efeito é esse? É a tendência de achar muito precisas descrições que parecem feitas pra gente, mas que são vagas o bastante pra servir pra quase qualquer um

Bertram Forer descreveu isso em 1949 como ‘falácia da validação pessoal’, e o nome ‘efeito Barnum’ foi criado por Paul Meehl em 1956

Ele ajuda a explicar a aceitação de astrologia, leitura da sorte e alguns testes de personalidade

Onde a IA potencializa o efeito Barnum?

Soma isso ao mecanismo do modelo: ele reaproveita os detalhes da sua própria pergunta

Se você contou que está em dúvida sobre mudar de emprego, a ‘carta’ vai falar de mudança, de coragem, de novos caminhos…

O texto soa ainda mais pessoal, mas boa parte dele é só o seu contexto voltando pra você com outra roupa

Quando a IA concorda demais: o caso da bajulação no GPT-4o

Tem mais um ingrediente nessa receita, e esse foi assumido publicamente pela OpenAI

Em abril de 2025, a empresa reverteu uma atualização do GPT-4o que deixou o modelo bajulador (o termo em inglês é ‘sycophancy’)

Ele concordava demais com o usuário, validava afirmações erradas e reforçava crenças preocupantes

A distribuição começou em 24/04/2025, terminou em 25/04/2025 e a reversão completa pra versão anterior veio na segunda-feira seguinte

O que causou a bajulação?

Segundo a OpenAI, o problema veio de dar peso demais ao feedback de curto prazo, como os joinhas (thumbs-up) dos usuários

E as avaliações internas não foram amplas o bastante pra detectar o problema antes

Faz sentido né? Se o modelo é premiado quando a pessoa gosta da resposta, ele aprende a dizer o que agrada

O GPT-4o ainda está no ChatGPT?

Não, desde 13 de fevereiro de 2026 o GPT-4o não está mais disponível no ChatGPT, e o GPT-4.1, o GPT-4.1 mini e o o4-mini também foram aposentados

Segundo o TechCrunch, o GPT-4o era o modelo da OpenAI com a maior pontuação de bajulação e esteve no centro de processos ligados a autolesão, comportamento delirante e ‘psicose de IA’

O mesmo TechCrunch informou que só 0,1% dos usuários ainda usava o GPT-4o, e com 800 milhões de usuários ativos por semana isso dava cerca de 800 mil pessoas (dados de fevereiro de 2026)

E o que isso tem a ver com tarot?

Tudo!

Um modelo que tende a concordar reforça o que você já quer ouvir, e numa leitura de tarot você normalmente chega com uma esperança ou um medo bem definidos

Junta isso com o efeito Barnum e com a previsão de texto plausível e pronto: a leitura ‘acerta’ sem acertar nada

Como usar o ChatGPT para tarot sem se enganar

Não tô dizendo pra ninguém parar de brincar com isso, beleza?

Se é divertido pra você, massa, só vale usar com os olhos abertos:

  • trate como entretenimento ou como ponto de partida pra refletir sobre algo, nunca como previsão
  • perceba o espelho: releia a resposta e veja quanto dela é a sua própria pergunta reescrita
  • desconfie do genérico: se a frase serviria pra qualquer amigo seu, é efeito Barnum trabalhando
  • não decida nada importante com base nela: saúde, dinheiro e relacionamento ficam fora da tiragem
  • tom confiante não é acerto: como a pesquisa da OpenAI mostra, o modelo foi incentivado a soar seguro mesmo quando não tem base

Um teste simples: faça a mesma pergunta mudando os detalhes do contexto e compare como a ‘mensagem das cartas’ acompanha o que você escreveu 😀

O ChatGPT não lê o futuro, ele continua o seu texto

Recapitulando: o ChatGPT sempre tem uma resposta pro tarot porque prevê texto plausível, palavra por palavra, e não porque sabe algo sobre você

A tiragem é simulada, o treino recompensa o chute em vez do ‘não sei’, o efeito Barnum faz o genérico parecer pessoal e um modelo bajulador ainda reforça o que você queria ouvir

Entender isso muda a forma de usar IA em qualquer tema

Vale quando você pede uma arte de pôster no ChatGPT e vale quando você pede acessibilidade no Claude Code: a IA continua o seu texto, então quem revisa o resultado é você

Se curtiu entender o que roda por trás da resposta, dá uma olhada nos outros conteúdos aqui do Hora de Codar sobre como os modelos de IA funcionam, tem muita coisa massa por lá 🙂

Até o próximo post!

Perguntas frequentes

Dá pra pedir uma leitura de tarot usando o GPT-4o no ChatGPT?

Não, o GPT-4o saiu do ChatGPT em 13 de fevereiro de 2026, junto com o GPT-4.1, o GPT-4.1 mini e o o4-mini. Antes disso, segundo o TechCrunch, ele era o modelo da OpenAI com a maior pontuação de bajulação, o que deixava as respostas (inclusive as de tarot) ainda mais complacentes.

Dá pra confiar numa leitura de tarot do ChatGPT pra tomar uma decisão importante?

O próprio TechTudo avisa que a IA não tem cartas físicas, que a tiragem é só simulada via prompt e que as respostas devem ser vistas como entretenimento. Some a isso o fato de o pré-treinamento recompensar texto plausível, não necessariamente exato, e a coisa fica ainda mais arriscada quando não existe fato nenhum pra checar.

Por que o ChatGPT parece nunca errar o sentido de uma carta de tarot?

Porque não existe uma ‘carta certa’ pra checar a resposta, então o modelo nunca esbarra num fato que o contradiga. Ele só continua o texto prevendo a próxima palavra mais provável a partir do que você escreveu, token a token, incluindo o nome da carta que ele mesmo ‘tirou’.

O ChatGPT sabe quando está inventando uma resposta de tarot?

Segundo a pesquisa da OpenAI de setembro de 2025 (arXiv 2509.04664), os modelos alucinam porque o treinamento e a avaliação recompensam o chute em vez de admitir incerteza. A correção proposta é penalizar mais os erros ditos com confiança e dar crédito parcial a quem expressa incerteza, mas no tarot não existe resposta certa pra flagrar o chute.

Quantas pessoas ainda usavam o GPT-4o antes de ele sair do ChatGPT?

Segundo o TechCrunch, só 0,1% dos usuários ainda usava o GPT-4o, o equivalente a cerca de 800 mil pessoas dentro de uma base de 800 milhões de usuários ativos por semana, com dados de fevereiro de 2026.

Por que o ChatGPT parece mais ‘convincente’ no tarot do que em perguntas técnicas?

Porque no pré-treinamento o modelo maximiza a probabilidade dos dados de treino, o que costuma recompensar o que é plausível e não o que é exato. Pergunta técnica em geral tem resposta certa pra checar, enquanto a leitura de tarot não tem, e aí o texto plausível passa sem contestação.



Escrito por | Matheus Battisti

Matheus Battisti
Fundador da Hora de Codar

Programador apaixonado pelo mundo das tecnologias, sempre buscando em aprender e se aprofundar em linguagens, frameworks e o que mais for necessário para executar um bom trabalho. Agora tem uma nova missão que é de passar seu conhecimento adiante para formar novos programadores e especializar mais os que já são.

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