Prefill e decode: o que significa o Jalapeño ser um acelerador fungível?

Prefill e decode são as duas fases da inferência de um LLM: no prefill o sistema processa o prompt e tende a precisar de computação, no decode ele emite os tokens um a um e costuma ser limitado por largura de banda de memória. Chamar o Jalapeño, o acelerador de inferência da OpenAI co-desenvolvido com a Broadcom, de fungível significa que ele foi projetado pra ir bem nas duas fases e se adaptar quando o equilíbrio entre elas muda, em vez de separar cada fase em pools de hardware especializados, que é o caminho da inferência desagregada
Fala aí, beleza? No anúncio do primeiro chip da OpenAI apareceu uma palavra que quase ninguém parou pra explicar: fungível
O Jalapeño é o acelerador de inferência (Intelligence Processor) da OpenAI, co-desenvolvido com a Broadcom e apresentado publicamente em 24 de junho de 2026, o primeiro chip de uma plataforma de computação multigeracional
E pra entender por que a OpenAI insiste nessa palavra, você precisa antes entender as duas fases que todo modelo de linguagem atravessa quando responde alguma coisa
Bora do começo?
As duas fases da inferência: prefill e decode
A própria OpenAI separa a inferência em dois momentos bem diferentes
No prefill, o sistema processa o prompt e tende a precisar de computação
No decode, ele emite os tokens um a um e costuma ser limitado por largura de banda de memória
Repare no detalhe: não são "duas partes da mesma coisa", são duas cargas com gargalos distintos
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Uma analogia de aproximação: prefill é ler o enunciado inteiro da prova de uma vez, decode é escrever a resposta palavra por palavra, sempre voltando pra consultar o que já foi escrito
Ler o enunciado te cobra cabeça, escrever a resposta te cobra ir e voltar na folha o tempo todo
É por isso que a OpenAI não trata inferência como uma carga uniforme de computação
Se fosse uniforme, bastaria empilhar FLOPs e pronto
Não basta 🙂
Prefill x decode: o que muda entre as duas fases
| Aspecto | Prefill | Decode |
|---|---|---|
| O que o sistema faz | Processa o prompt | Emite os tokens um a um |
| Gargalo típico | Computação | Largura de banda de memória |
| O que isso cobra do hardware | Poder de cálculo pra mastigar o prompt de uma vez | Memória rápida e estado do modelo por perto |
| Estado envolvido | Montagem do contexto | KV cache usado durante a geração da resposta |
| Onde você percebe no uso | No tempo até a resposta começar | Na velocidade com que o texto vai saindo |
Guarda essa tabela, porque ela é a chave de tudo que vem depois
Duas fases, dois gargalos, duas exigências de hardware diferentes
Por que existe a inferência desagregada (e o que ela resolve)
O mercado já tinha uma resposta consolidada pra esse problema, e ela é bem elegante
Chama-se inferência desagregada: rodar prefill e decode em pools de hardware separados, cada um escalando de forma independente
A lógica é direta
Se prefill é limitado por computação e decode é limitado por banda de memória, por que forçar o mesmo pedaço de silício a ser bom nos dois?
Separa, dimensiona cada pool pelo que ele realmente consome, e você aproveita melhor a máquina
Isso não é espantalho pra depois derrubar, é engenharia séria e é a alternativa real ao caminho que a OpenAI escolheu
A especialização tem custo, claro: você precisa mover estado entre os pools e acertar a proporção entre eles
Segura essa palavra, proporção, que ela volta daqui a pouco
Como o projeto do Jalapeño ataca o problema por outro caminho
A OpenAI descreve o Jalapeño como um acelerador balanceado e fungível, que suporta arquiteturas de modelo em mudança, vai bem tanto em prefill quanto em decode e se adapta quando o equilíbrio entre as duas fases muda
Em vez de separar as fases no hardware, o projeto tenta fazer o mesmo sistema virar a chave conforme a fase
O objetivo declarado é minimizar movimentação de dados e atraso de comunicação
Pra isso, o estado do modelo, incluindo o KV cache usado durante a geração da resposta, pode ser colocado explicitamente e mantido local, enquanto o sistema ativa a combinação certa de computação, memória e rede pra cada fase da inferência
E isso não é decisão só do chip
Acelerador, subsistema de memória, rede, software de serving e sistema em escala de rack foram projetados em conjunto pra endereçar as fases distintas da inferência
Co-design é a palavra que eles usam, e ela faz sentido aqui: adianta pouco um acelerador rápido se o estado do modelo tá longe dele
Um ponto que vale registrar: o Jalapeño é um ASIC construído especificamente pra inferência de LLM
Não é acelerador de treinamento reaproveitado, nem processador de IA de propósito geral
O que a OpenAI não detalha é o mecanismo dessa fungibilidade
Como exatamente o chip se reparte entre prefill e decode, como escalona, o que é reconfigurável: isso não foi publicado
Eles descrevem o resultado, não o como
Onde o equilíbrio entre prefill e decode realmente muda
Agora o ponto que amarra a escolha de arquitetura
A OpenAI aponta a adaptação entre as fases como característica definidora de cargas agênticas
Faz sentido quando tu pensa nos formatos de uso
- Prompt gigante e resposta curta: o peso desaba no prefill (aquele arquivo inteiro jogado no contexto pra devolver um veredito de duas linhas)
- Prompt curto e resposta longa: o peso vai pro decode, token a token
- Muitas idas e voltas: agente que chama ferramenta, recebe retorno, chama de novo, e a proporção entre as fases muda a cada rodada
Quando a proporção é estável, dimensionar pools separados é tranquilo
Quando ela balança o tempo todo, o pool especializado ocioso vira desperdício e o outro vira fila
A discussão nem é só de marketing de fabricante: pesquisa acadêmica de 2026 já investiga quando a especialização de prefill, decode, atenção e FFN compensa em inferência agêntica de LLM, no artigo When Does Disaggregation Pay?
Ou seja: a pergunta é legítima e tá em aberto
Os primeiros números do Hot Chips 2026 e o que eles não provam
Os primeiros resultados de desempenho do Jalapeño foram apresentados no Hot Chips 2026, em 25 de agosto de 2026, com publicação simultânea dos números pela OpenAI
Os testes usaram o benchmark público InferenceX, criado e operado pela SemiAnalysis, rodando três modelos: GPT-OSS 120B, DeepSeek R1 670B e Kimi K2.5 1T
O que saiu:
- de 1,5x a 1,9x mais trabalho de IA por watt em pico de throughput
- de 1,7x a 3,6x menor latência ponta a ponta
- em cargas altamente interativas, a vantagem relatada sobe pra faixa de 2,1x a 4,1x
A comparação foi feita contra os melhores resultados disponíveis de sistemas Nvidia GB200 e GB300 na época do teste
Do lado das especificações divulgadas: 700 W de TDP por pacote, 13,4 PFLOP/s de computação matricial MXFP4, 216 GiB de memória e 15,4 TB/s de banda com HBM4
O pacote combina um die de computação do tamanho de um retículo, fabricado no nó N3P da TSMC, com um chiplet de I/O em N3E e seis pilhas de HBM4
A implantação em escala de rack reúne 128 aceleradores Jalapeño
A divisão de papéis também é pública: a Broadcom entrou com implementação de silício, tecnologia de rede (incluindo a plataforma Tomahawk) e suporte de produção, a TSMC fabrica e a Celestica constrói placa e sistemas de rack
E o ciclo de desenvolvimento, do design inicial ao tape-out de manufatura, levou nove meses
Nove meses é insano pra um ASIC desse porte
Agora a parte que quase ninguém repete, e que precisa ser dita
O Jalapeño não foi testado contra a plataforma Vera Rubin da Nvidia
E as comparações principais rodaram previsão de token único dos dois lados, sem multi-token prediction e sem decodificação especulativa, técnicas comuns em implantações Nvidia de produção
Ou seja: o número é real, o recorte é específico
Tome cuidado ao repetir manchete de "bateu a Nvidia" sem essas duas ressalvas
Modelos abertos, o assunto que aparece no meio dos testes
Repara que o benchmark rodou em cima de modelos de pesos abertos, e esse universo tá se movendo rápido
Pra quem tá chegando agora nele, este vídeo do canal coloca na roda o Kimi K2.7 Code, que é outra versão da família Kimi, não o K2.5 1T que apareceu no teste do Hot Chips, e faz a pergunta que todo mundo tá fazendo, se um modelo open source consegue encarar o Opus 4.8
O que isso muda para quem constrói com LLM
Você provavelmente não vai comprar um Jalapeño, beleza? Mas o conceito serve direto no seu dia a dia
Quando a primeira palavra da resposta demora a aparecer, o aperto tende a estar no prefill
Quando a resposta começa rápido mas vai saindo devagar, o aperto tende a estar no decode
São gargalos diferentes, e por isso as APIs cobram e limitam token de entrada e token de saída de formas diferentes
Isso muda decisão de projeto: enfiar contexto gigante em toda chamada é uma conta, pedir resposta longa é outra conta
E ajuda a ler os próprios limites com menos achismo, inclusive quando a chamada estoura e tu cai num erro no servidor sem entender de onde veio o aperto
Do lado da infra, o que tá confirmado é o seguinte: a OpenAI planeja começar a implantar o Jalapeño na própria infraestrutura de computação até o fim de 2026, e segue implantando aceleradores da Nvidia e de outros fornecedores
Ou seja, não é troca de guarda, é mais um tipo de máquina entrando no parque
Conclusão
Fungível não é slogan, é uma aposta de arquitetura
De um lado, a inferência desagregada separa prefill e decode em pools especializados e escala cada um por conta própria
Do outro, o Jalapeño tenta ser bom nas duas fases e se adaptar quando a proporção entre elas muda, apoiado em co-design de acelerador, memória, rede, software de serving e sistema em escala de rack
Os primeiros números do Hot Chips 2026 são fortes, e as ressalvas também são reais: sem Vera Rubin na comparação e sem MTP nem decodificação especulativa no baseline
A prova mesmo vem quando o chip estiver rodando em produção, e o calendário declarado pela OpenAI é esse: começar a implantar o Jalapeño na própria infraestrutura de computação até o fim de 2026, sem tirar Nvidia do parque
Enquanto isso, faz o exercício nas tuas próprias aplicações: olha onde tá a demora, se é a primeira resposta ou a geração, e você já vai enxergar prefill e decode sem precisar de datacenter nenhum 😀
até o próximo post!
Perguntas frequentes
Jalapeño vai substituir a Nvidia na infraestrutura da OpenAI?
Não. Como o post detalha, a OpenAI planeja começar a implantar o Jalapeño na própria infraestrutura de computação até o fim de 2026, mas segue implantando aceleradores da Nvidia e de outros fornecedores. É uma adição ao parque, não uma troca.
Qual a diferença entre o Jalapeño e a inferência desagregada?
A inferência desagregada roda prefill e decode em pools de hardware separados, cada um escalando de forma independente. O Jalapeño segue o caminho oposto: é um acelerador balanceado e fungível, que tenta ser bom nas duas fases no mesmo sistema e se adaptar quando o equilíbrio entre elas muda.
O Jalapeño foi comparado com a Vera Rubin da Nvidia?
Não. Os números do Hot Chips 2026 compararam o Jalapeño contra os melhores resultados disponíveis de sistemas Nvidia GB200 e GB300 na época do teste. A própria OpenAI ressalva que não houve comparação com a plataforma Vera Rubin.
Quais empresas participaram do desenvolvimento do Jalapeño?
A OpenAI cuidou da arquitetura e do co-design, a Broadcom entrou com implementação de silício e a tecnologia de rede Tomahawk, a TSMC fabrica o chip e a Celestica constrói a placa e os sistemas de rack. O ciclo completo, do design ao tape-out, levou nove meses.
O que significa um acelerador de IA ser fungível?
No caso do Jalapeño, fungível é a capacidade de ir bem tanto em prefill quanto em decode e se adaptar quando a proporção entre essas duas fases muda, em vez de precisar de hardware especializado pra cada uma. A OpenAI descreve o resultado dessa fungibilidade, mas não publicou o mecanismo interno de como o chip faz essa troca.
Os números do Jalapeño no Hot Chips valem pra qualquer carga de trabalho?
Os ganhos de 1,5x a 1,9x em trabalho por watt e de 1,7x a 3,6x em latência (chegando a 2,1x a 4,1x em cargas altamente interativas) saíram do benchmark InferenceX, da SemiAnalysis, com GPT-OSS 120B, DeepSeek R1 670B e Kimi K2.5 1T. As comparações rodaram previsão de token único dos dois lados, sem multi-token prediction nem decodificação especulativa, técnicas comuns em implantações Nvidia de produção.
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