Como criar uma persona de IA com instruções de sistema (exercício prático com Claude Frollo)

exemplo de persona de IA definida em instruções de sistema no Claude
Resposta rápida

Persona de IA não nasce de "seja amigável": isso não restringe nada e o modelo volta pro tom padrão. Aqui você escreve a persona dentro da instrução de sistema (papel concreto, background, voz observável, vocabulário, limites e exemplos de saída), usando Claude Frollo só como exercício de referência de escrita. Depois aplica no lugar certo do produto: parâmetro system na Messages API, instruções de projeto ou estilo personalizado no Claude.ai, e output style no Claude Code, que é um arquivo Markdown anexado ao system prompt e lido no início da sessão

Todo assistente de IA parece ter saído da mesma fábrica, e a culpa quase nunca é do modelo

É da instrução

"Seja amigável", "responda com estilo", "tenha personalidade": isso não descreve NADA, não restringe nenhuma saída, e o modelo faz a única coisa sensata que sobrou, que é cair no tom padrão dele

Então bora fazer o exercício ao contrário: escrever uma persona de IA tão específica que o texto de saída muda de verdade

O cobaia da vez é Claude Frollo, o antagonista de Victor Hugo, que virou termo de busca por conta do nome e serve muito bem aqui por um motivo só: é um personagem de contorno fortíssimo, fácil de descrever em traços observáveis

Deixando claro antes de começar: isso é exercício de ESCRITA de instrução, não recomendação de comportamento pro seu assistente

E o post cobre os três lugares onde a instrução de sistema mora hoje: a API, o Claude.ai e o Claude Code

O que você precisa antes de começar

Primeiro, escolha em qual caminho você vai praticar, porque o lugar da instrução muda em cada produto

Produto Onde a persona mora Escopo
API (Messages API) parâmetro system a requisição que você montar
Claude.ai profile instructions, project instructions ou styles conta inteira, um projeto só, ou o formato da entrega
Claude Code output style (arquivo Markdown com frontmatter) usuário (~/.claude/output-styles/) ou repositório (.claude/output-styles/)

No Claude.ai são três recursos distintos, se liga na diferença: as profile instructions valem para todas as conversas da conta, as instruções de projeto valem só para os chats daquele projeto, e os styles tratam de como o Claude formata e entrega a resposta

Segundo: tenha clareza do que a persona precisa ENTREGAR

Persona não é enfeite, é restrição de saída

Se você não consegue dizer o que muda no texto final, você ainda não tem persona, tem adjetivo

Terceiro: junte exemplos de saída desejada antes de escrever

A documentação de consistência orienta exatamente isso, definir papel e personalidade no system prompt E dar exemplos de saída desejada e de cenários comuns com as respostas esperadas

E uma nota importante pra quem vem de tutorial antigo: prefill (colocar o início da resposta no turno do assistente) não é suportado no Claude 4.6 e modelos posteriores, nem no Claude Mythos Preview

A orientação atual é usar structured outputs (onde houver suporte) ou instruções no system prompt

Ou seja: a persona TEM que viver na instrução de sistema agora

Passo a passo: escrevendo a persona de Claude Frollo em instrução de sistema

Bora ver na prática? Cada passo tem o texto de instrução e o erro que quase todo mundo comete nele

  1. Defina o papel em uma frase concreta

A própria doc do system prompt usa o formato mais direto possível:

system="You are a seasoned data scientist at a Fortune 500 company."

Repare que a frase tem cargo, senioridade e contexto de trabalho

A sua versão do exercício segue o mesmo molde:

system="Você é Claude Frollo, arquidiácono de Josas em Notre-Dame de Paris, no ano de 1482, respondendo a quem procura orientação na catedral."

O erro comum deste passo: escrever "seja um assistente com personalidade"

Isso é um pedido, não um papel

  1. Dê background, e escolha UMA versão do personagem

Aqui entra o material bruto

No romance de Victor Hugo, de 1831, Claude Frollo é clérigo católico e arquidiácono de Josas, além de alquimista e humanista renascentista

Já na animação da Disney de 1996, ele é juiz e ministro da justiça de Paris (e foi dublado em inglês por Tony Jay)

Cada versão produz um vocabulário completamente diferente

O arquidiácono alquimista fala de escritura, de matéria, de estudo, de pecado como problema de conhecimento

O juiz fala de lei, ordem, sentença, autoridade civil

O erro comum deste passo: misturar as duas versões

Aí a persona fica sem centro e o texto sai morno, meio padre meio delegado

  1. Descreva a VOZ em traços observáveis

Adjetivo não é instrução

"Tom sombrio" não diz ao modelo o que fazer com uma frase

Descreva ritmo, formalidade, o que a persona nomeia e o que ela evita nomear:

VOZ:
- frases longas e subordinadas, com uma pausa clara antes da conclusão
- tratamento formal, sempre "vós" ou "senhor", nunca gíria
- nomeia lugares, livros e horas do dia; evita nomear sentimentos diretamente
- não faz piada, mas usa ironia contida em uma frase curta no fim do parágrafo

O erro comum deste passo: listar clima em vez de comportamento de texto

  1. Fixe o vocabulário nas duas direções

Lista curta do que usa, lista curta do que NUNCA usa

USA: catedral, escritura, ofício, matéria, hora, disciplina, estudo
NUNCA USA: "tipo assim", "beleza", emoji, exclamação dupla, jargão de startup

O erro comum deste passo: só listar o que usar

A lista do proibido é a que segura o modelo de voltar pro tom padrão na terceira resposta

  1. Escreva os limites e o "nunca faça"

Este é o passo que separa persona de bagunça

Diga onde a voz cede lugar ao conteúdo útil, o que ela não deve dramatizar e o que ela não deve recusar:

LIMITES:
- a resposta técnica vem completa e correta; o estilo nunca corta informação
- não dramatiza recusa, não moraliza o usuário, não julga quem pergunta
- em pedido de ajuda prática, entrega o passo a passo primeiro e o floreio depois
- o personagem é de ESTILO, não de conduta: as regras de comportamento seguem as de sempre

O erro comum deste passo: tratar persona como liberação de comportamento

Vestir um vilão não muda o que o assistente pode ou não fazer, muda só como ele escreve

  1. Adicione exemplos de saída e cenários comuns

A doc de consistência é bem explícita nisso: além do papel e da personalidade, inclua exemplos da saída desejada e cenários comuns com as respostas esperadas

Dois ou três pares de pergunta e resposta já mudam o jogo

O erro comum deste passo: pular esta etapa e depois culpar o modelo por "sair do personagem"

  1. Aplique no produto que você escolheu

Na API, tudo isso vira o conteúdo do parâmetro system da Messages API

No Claude.ai, você pode colocar como instruções do projeto (que valem para todos os chats daquele projeto, e a própria ajuda cita pedir tom mais formal ou resposta sob a ótica de um papel) ou criar um estilo personalizado: além dos presets, o Claude gera estilos a partir de conteúdo de exemplo que você envia, com instruções específicas e edição depois, e o estilo é definido na caixa de chat

No Claude Code, a persona entra por output style, que é um arquivo Markdown com frontmatter mais as instruções, e o Claude Code acrescenta essas instruções ao final do system prompt

---
keep-coding-instructions: true
---

# Persona: arquidiácono de Josas

VOZ: frases longas e subordinadas, tratamento formal, sem gíria
NUNCA USA: emoji, exclamação dupla, jargão de startup
LIMITES: o estilo nunca corta informação técnica

Salve em ~/.claude/output-styles/ para um estilo de usuário, que vale em todo projeto, ou em .claude/output-styles/ dentro do repositório para um estilo de projeto, que é commitável e compartilhável com o time

Esse arquivo no repo funciona como qualquer peça reaproveitável do seu fluxo, na mesma pegada de personalizar templates de automação que já vêm prontos: clona, ajusta o texto, usa

O erro comum deste passo: aplicar receita de um produto no outro

Estilo do Claude.ai não é output style do Claude Code, e nenhum dos dois é o parâmetro system da API

  1. Teste DE NOVO depois de editar

Tome cuidado com esse: no Claude Code, o output style é lido uma vez, no início da sessão

Mudanças no arquivo só valem depois de /clear ou de uma sessão nova

O erro comum deste passo: editar o arquivo, mandar uma mensagem no mesmo chat e concluir que "o modelo ignorou a instrução"

Ele nem leu ainda 🙂

Quando a persona ajuda (e quando ela atrapalha)

Descrever voz rende MUITO em três situações

Padronizar as respostas de um produto, para que dez conversas diferentes soem como a mesma empresa

Ensinar em vez de só cuspir código, quando você quer o porquê junto

E manter tom de marca em texto, que é onde adjetivo genérico mais estraga

O mesmo raciocínio vale para nós de IA dentro de fluxo de automação, tipo uma triagem de currículos com agendamento: papel concreto e formato de saída fixo entregam parecer utilizável, instrução vaga entrega redação

Agora os contrapesos, que são reais

No Claude Code, um output style personalizado REMOVE as instruções nativas de engenharia de software, a menos que você peça o contrário com keep-coding-instructions: true no frontmatter, que mantém as embutidas e sobrepõe as suas

Antes de escrever o seu do zero, vale olhar os que já vêm: além do Default (o system prompt existente, voltado a tarefas de engenharia), existem Proactive, Explanatory e Learning

E tem o custo: acrescentar instruções ao system prompt aumenta os tokens de entrada, com o prompt caching reduzindo o custo depois da primeira requisição da sessão

Explanatory e Learning, por design, geram respostas mais longas que o Default

Persona não é a mesma coisa que regra de projeto

Essa confusão é comum, então bora separar

Persona é VOZ, e vive no output style ou na instrução de sistema

Regra persistente de projeto vive no CLAUDE.md, na raiz do projeto (ou em .claude/CLAUDE.md), lido no início de cada sessão

A versão de usuário fica em ~/.claude/CLAUDE.md e vale para todos os projetos, e o comando /memory lista e abre os arquivos de memória na sessão

Ou seja: "escreva assim" é persona, "neste repo a gente roda o teste antes de commitar" é memória de projeto

Próximo passo: sua persona em uma página

A ideia central é simples: instrução vaga produz tom genérico porque não restringe nada

Persona boa é papel concreto, mais background, mais voz observável, mais vocabulário nas duas direções, mais limites, mais exemplos de saída

Seis blocos, uma página, nada de fórmula mágica

O próximo passo prático é esse mesmo: escreva a sua em uma página, aplique no lugar certo do produto que você usa (parâmetro system, instruções de projeto/estilo, ou output style) e compare a mesma pergunta com e sem ela

A diferença aparece na primeira resposta

E se você quiser ler instrução de sistema escrita por gente que faz isso o dia inteiro, a Anthropic publica os system prompts do Claude.ai e dos apps iOS e Android

Só lembrando que essas atualizações não valem para a API, então leia como referência de ESCRITA, não como configuração sua

Até o próximo post! 😀

Perguntas frequentes

Dá pra usar o Claude Frollo (ou qualquer persona de ficção) em produção, valendo pra usuários reais?

O exercício deste post é de escrita de instrução, não recomendação de comportamento pro seu assistente. O personagem entra como estilo de texto, e os limites de conduta seguem os de sempre, sem exceção.

Por que o prefill não funciona mais pra fixar a persona logo no início da resposta?

Prefilling não é suportado no Claude 4.6 e em modelos posteriores, nem no Claude Mythos Preview. A orientação atual é usar structured outputs, onde houver suporte, ou colocar a instrução direto no system prompt.

Qual a diferença entre output style e CLAUDE.md no Claude Code?

O output style é lido uma vez no início da sessão e muda o tom, sendo anexado ao final do system prompt. Já o CLAUDE.md é lido no início de cada sessão e guarda regras persistentes do projeto, então os dois resolvem problemas diferentes.

Onde salvar um output style pra ele valer em todos os projetos, e não só em um repositório?

Estilo de usuário fica em ~/.claude/output-styles/ e vale em todo projeto. Estilo de projeto fica em .claude/output-styles/ dentro do repositório, o que permite versionar e compartilhar com o time.

Um output style personalizado no Claude Code apaga as instruções nativas de engenharia de software?

Sim, por padrão o output style personalizado remove as instruções nativas voltadas a tarefas de engenharia. Pra manter as instruções embutidas e só sobrepor a sua, é preciso definir keep-coding-instructions: true no frontmatter.

Dá pra criar uma persona só pra um projeto no Claude.ai, sem mudar o tom das outras conversas da conta?

Sim, é exatamente pra isso que existem as instruções de projeto. Diferente das profile instructions, que valem pra conta inteira, as instruções de projeto valem só para os chats daquele projeto específico.



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